terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

CRÍTICA: IRREVERSÍVEL



Direção: Gaspar Noé
Gênero: Drama
Duração: 94 min.
Ano: 2002

Ousadia e morbidez perturbadoras

Em tempos em que a banalização da violência já não choca nem assusta as pessoas, não é de se esperar que o cinema consiga facilmente utilizar este elemento – a violência – de maneira a perturbar os espectadores e, mais que isso, consagrar-se como obra relevante no cenário da sétima arte. Felizmente, há exceções, como bem demonstra o argentino Gaspar Noé, responsável por um dos filmes mais doentios, mórbidos, perversos e (o mais importante) de elevada qualidade já produzidos: “Irreversível”.
 Perverso, cruel, constrangedor, sensível, íntimo... o diretor reúne adjetivos um tanto contraditórios, mas poderosamente significativos que se inserem com perícia exemplar no longa, à medida que ele progride (ou, mais necessariamente, regride, se levarmos em conta a estrutura narrativa inversa adotada pelo realizador). A sequência de abertura, com créditos confusos, embaralhados e invertidos já fornece um prenúncio de que "Irreversível" não é um filme comum, organizado de forma tradicional, linear. As cores escuras (preto e vermelho) dos créditos também servem como aviso quanto ao conteúdo de violência e sexo estilizados - embora de forma crua e intencionalmente desagradável. Logo de início, fica evidente que o filme “é para poucos”, não apenas pela temática forte, que exige muito estômago e sangue frio, mas pela própria forma difusa de apresentar os fatos, os acontecimentos, com ritmo próprio, que acelera ou estagna nos momentos cruciais, conseguindo tal efeito pelo uso subjetivo da câmera.
De fato, as cenas se encadeiam geralmente sem cortes, assemelhando-se, às vezes, a um documentário ao vivo, onde a câmera fica parada ou sofre súbito zigue-zague para acompanhar os personagens, mudando de foco ou de cena, construindo, porém, uma identidade própria, gradativa, que se desnuda lentamente.
         Apresentando-se como uma história de vingança, de avidez por desforra, “Irreversível” mostra o quanto o desespero e a impulsividade afetam a sensatez do ser humano. A vingança alucinante do homem cuja namorada foi brutalmente violentada apresenta-se, na perspectiva genial de Noé, de maneira subjetiva e visceral, notável, por exemplo, na câmera difusa nas sequências iniciais, nos takes rápidos e apressados, no desvario do personagem que sai às cegas em busca de pistas, sem se importar com a lógica ou sequer parar para refletir.
Nesses momentos, fica clara a intenção de Noé em fazer com que o espectador se sinta na pele de Marcus (Vincent Cassel). Tudo é representado em tons sombrios, intercalados por sequências visuais chocantes, que têm seu ápice no famigerado estupro no túnel do metrô. O ambiente em si não é sombrio, mas é claustrofóbico e assustador num sentido amplamente psicológico.
Quanto à cena do estupro da personagem Alex (Monica Bellucci), esta se desenvolve, ou, antes, se arrasta por aproximadamente dez minutos que parecem intermináveis, tamanha a aflição e constrangimento conferidos pelo ato, registrado sem cortes pela câmera praticamente imóvel, como que abandonada.
Mais do que o estupro em si, a cena demonstra a opressão, o subjugo do ser humano ao perder sua dignidade, sua integridade física e moral e, por fim, o trauma realmente irreversível deixado por aquele horror. O espectador fica estupefato pela violência empregada ali e ainda por cima é forçado a acompanhar a história em retrocesso, impossibilitado de saber como aquilo terminará, mas fazendo uma depressiva volta no tempo.
A estética violenta adotada por Noé incomoda muita gente, mas longe de ser gratuita, confere ao seu filme um tom de realidade tão verossímil que justifica sua importância em plano de relevo na carreira do diretor, de Bellucci e de modo geral, no cinema dito “polêmico”.


Conceito: Excelente
Nota: 10,0

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Crítica: Fome de Viver




Direção: Tony Scott
Gênero: Suspense/Drama
Duração: 96 min.
Ano: 1983

“Estiloso! Explícito! De tirar o fôlego!”
(Los Angeles Times)

A sofisticação de um clássico gótico sublime

No início da década de 80, época em que Anne Rice estourava no mundo apresentando uma revolução na mitologia e nas histórias de vampiros com o célebre “Entrevista com o Vampiro”, um diretor estreante assumiu a responsabilidade de levar às telas uma trama inovadora, na qual não faltavam nem a atmosfera gótica nem o erotismo mórbido e intenso tão bem explorados nas obras de Rice. Em “Fome de Viver” (The Hunger),Tony Scott – irmão do cineasta Ridley Scott – apresenta uma das obras mais cultuadas e originais do gênero, dando uma perspectiva sofisticada à temática vampiresca, já um tanto “marginalizada” em produções repetitivas ou trash.
Baseado no best-seller homônimo de Whitley Strieber, “Fome de Viver” conta a história de Mirian Blaylock (Catherine Deneuve, simplesmente perfeita no papel), uma mulher misteriosa, elegante... e imortal, que sobrevive através dos séculos com o sangue de seus amantes. Juntamente com John (David Bowie), seu atual amante, com quem aparentemente forma um casal de ricos góticos, Mirian seduz pessoas, roubando-lhes a vida e destruindo os vestígios após se alimentar. O diferencial de “Fome de Viver” começa nas próprias características dos personagens centrais: aqui, os sugadores não queimam ao sol (mas, obviamente, também não brilham diante dele), não temem alho ou crucifixos e nem são demônios irracionais; o ponto principal, porém, diz respeito à curiosa forma como se alimentam. Mirian e John não possuem presas aguçadas como os vampiros tradicionais; para matar as vítimas, utilizam pingentes em forma de ank (um símbolo egípcio) que ocultam uma pequena lâmina, com a qual cortam os pescoços das pessoas. Falando assim, haverá muitos indivíduos que estranharão essa forma de “ser vampiro”, mas é interessante notar que, no decorrer do filme, a palavra “vampiro” não é pronunciada nem uma única vez; de fato, isso é uma conclusão a que o espectador chega ao saber que eles sobrevivem com sangue humano, são imortais, gostam de roupas sóbrias e escuras – sem abrir mão da sofisticação – e preferem andar à noite.
Conforme a trama avança, John passa a sofrer os efeitos de uma raríssima doença degenerativa que provoca um envelhecimento acelerado; preocupada com ele, Mirian recorre à ajuda da Dra. Sarah Roberts (Susan Sarandon), uma médica especialista no assunto, mas os rumos tomados a partir de então são totalmente inesperados. Nasce entre elas um vínculo homoerótico que culmina em uma das cenas de sexo lésbico mais icônicas do cinema.
Combinando o complexo drama do relacionamento entre Miriam e Sarah, e unindo a isso a melancolia da imortalidade, da solidão e da morte, o filme de Tony Scott tem razões suficientes para figurar como um dos filmes mais renomados quando se fala em história gótica. Chama a atenção no filme, justamente, a forma como os elementos da cultura gótica se agregam e ajudam a tecer um conjunto de organicidade exemplar: a trilha sonora “dark”, a fotografia escurecida e sombreada, propositalmente com pouca luz, os diálogos e até os gestos e trocas de olhar, tudo possui um sentido, um porquê, embora sob uma camada sombria de contextos. O roteiro de Ivan Davis e Michael Thomas favorece o desenvolvimento da trama com a sutileza necessária para que Catherine Deneuve transmita, gradativamente, a morbidez e a consciência de que a imortalidade é mais uma tortura do que uma dádiva, o que justifica a intensidade com que ela deve aproveitar a vida efêmera dos seus amantes.
As interpretações de Susan Sarandon e de David Bowie também acrescentam visões particulares dentro do contexto do filme: Sarah, mostrando a médica segura que vê suas crenças se diluírem ao se envolver com Mirian e experimentar algo que não imaginava ser possível; John, evidenciando o sofrimento que acompanha a degradação física e moral que o acompanha a partir do momento em que passa a sofrer sua doença e refletir sobre sua relação com Mirian.
Finalmente, o clímax do filme é excepcional, unindo o drama da perda a uma cena típica de terror com direito a alguns sustos substanciais e um horror visual marcante. Mais de trinta anos após seu lançamento, “Fome de Viver” ainda se mantém em status de filme Cult e, mesmo que não siga a cartilha tradicional de vampiros monstros e nem tenha sido mais um sucesso meramente comercial, preserva a essência obscura e tétrica da psicologia vampiresca, sem ridicularizá-los com a patética apelação romântica adolescente que se tornou modismo contemporâneo.


Conceito: Excelente
Nota: 10,0

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Crítica: Deixe-me Entrar


Direção: Matt Reeves
Gênero: Suspense/Terror
Duração: 115 min.
Ano: 2010

“Espetacular!”
(The Independent)

“Excepcional!”
(Time Out)

Uma demonstração de vampirismo promissora

Nos últimos anos, temos visto a cultura pop reciclar certos temas de forma bastante apelativa, direcionando-os a um público mais jovem, ainda que isto soe predominantemente como um pleonasmo. Isto foi o que aconteceu, por exemplo, com os vampiros, que, de monstros góticos e seculares ganharam nova roupagem – nem sempre bem aceita –, tornando-se ícones adolescentes. Aproveitando essa onda de “ressurreição” dos bebedores de sangue, aliada à falta de originalidade generalizada que assola Hollywood, o diretor Matt Reeves (realizador do considerável sucesso “Cloverfield: Monstro”) apresenta mais um remake para o rol da temática vampiresca, já tão desgastada. Contudo, “Deixe-me Entrar” (Let Me In) difere agradavelmente da maioria das produções atuais do gênero ao trazer uma abordagem séria e crua ao assunto, resgatando conceitos essenciais do mesmo, ao tempo em que inova na própria estrutura e rumos da história.
“Deixe-me Entrar”, refilmagem americana do cultuado filme sueco “Lat den rätte komma in”, apresenta uma proposta ousada na narração da trama, uma vez que os protagonistas são crianças – e uma delas é vampira. A inovação do filme, entretanto, está na postura assumida: o distanciamento de infantilidades; não há pretensão de atenuar violência ou apresentar personagens rasos, por se tratar de crianças, mas, pelo contrário, determinados assuntos “adultos” são tratados com naturalidade no decorrer da projeção, sem maquiagem ou floreios visuais.
Girando em torno do garoto Owen (Kodi Smit-McPhee, em uma interpretação espetacular), a história revela seu cotidiano difícil, principalmente por sofrer humilhações e bullying na escola; uma cena em especial, em que ele passa por um terrível constrangimento no banheiro é perturbadora o bastante para o espectador notar que evidentemente não está diante de um produto típico para o público infantil.
É em um desses momentos de revolta por tais humilhações que Owen conhece Abby (Chlöe Grace Moretz, a nova Carrie), uma garota mais ou menos da idade dele, que acabou de se mudar para o apartamento ao lado de sua casa. A partir de então, desenvolve-se uma relação razoavelmente amistosa entre eles, embora Owen estranhe os mistérios em torno de Abby, como sua insensibilidade ao frio e a intolerância à comida.
Chama a atenção o contraste construído pela história ao apresentar a vampira mirim Abby: nos momentos em que está com Owen, ela é melancólica, mas afável e o filme assume, nesses momentos, contornos de romance infantil, muito inocente; entretanto, nas situações em que Abby caça e ataca para se alimentar – e, a essa altura, já está claro que ela não aprecia coelhos ou esquilos – ela é selvagem e assustadora, garantindo as cenas mais sangrentas do filme. Este contraste, esta dualidade de personalidade conforme o instante é uma das melhores sacadas da obra, pois garante um equilíbrio entre as ações da personagem, afastando-a do clichê de ser politicamente correta e dando-lhe profundidade, multidimensionalidade.
Muito se fala que o filme original de 2008 é muito superior ao remake, mas, bem avaliado, isto não corresponde tanto à realidade, primeiro porque o filme de Reeves possui uma abordagem notavelmente distinta do filme sueco. Enquanto a película de Tomas Alfredson era baseada num livro homônimo, mais concentrado no drama e na sutileza psicológica, deixando o vampirismo quase em segundo plano, o novo filme busca um ponto de equilíbrio entre esses temas, dando, porém, ênfase à ação. Isto não significa que o roteiro da refilmagem deixa a desejar; não; nesta versão, conforme mencionado, a perspectiva é diferenciada e, embora a violência gráfica e a ação com toques de suspense policial sejam os principais atrativos, os demais aspectos do longa não decepcionam o espectador.
A transposição da história de Estocolmo para Novo México preservou as características básicas do filme original no plano visual (como, por exemplo, o cenário: uma cidade fria, onde está sempre nevando), enquanto Matt Reeves demonstrou habilidade em controlar o timing do filme, dando aos personagens mirins o tempo necessário, sem pressa ou atraso no desenvolvimento da história, para que a mesma não soasse artificial ou forçada.

Em resumo, “Deixe-me Entrar” é, com certeza, um dos melhores filmes de vampiros dos últimos anos, competindo apenas, provavelmente, com seu original a cujo nível dramático não chega, mas que também não pretende alcançar dessa forma. Reeves constrói um filme com identidade própria e, se podemos dizer que remakes são desnecessários, “Let me In” prova que ao menos podem ser satisfatórios quando bem feitos. 


Conceito: Ótimo
Nota: 9,0



quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

RESENHA: Amor Pleno




“Não há o que errar. Você pode ser o que quiser.”, a frase é dita em um momento muito oportuno do mais recente filme de Terrence Malick, Amor Pleno (To The Wonder). Ao contrário da experiência surrealista de A Árvore da Vida, o longa estrelado por Ben Affleck e Olga Kurylenko vai além do imaginário. Centrado em um conteúdo realista, a produção desconstrói as relações humanas e os sentimentos mais profundos e desejosos pelo homem: amor, liberdade, fé.
Conduzido através de pequenos monólogos, a trama acompanha duas histórias paralelas, sempre com foco na relação dos personagens de Affleck e Kurylenko. A trilha sonora é um combustível crucial no longa-metragem, e retrata os mais variados sentimentos com leveza, sutileza e algumas vezes, angústia. Nada muito diferente das reflexões que vivemos diariamente. Isto porque, torna-se fácil identificar-se com o teor das escolhas realizadas ao longo dos 112 minutos apresentados.
    Relações humanas podem ser vindouras ou destrutivas, dependendo das escolhas realizadas. Ainda assim, a principal emoção extenuada no roteiro de Malick é a pura e simples carga de expectativas que depositamos no outro alguém. Característica incomum no cinema atual, fugindo do estabelecido em diálogos, lágrimas em excesso e gritos de histeria. Não. Não é preciso isso em Amor Pleno. O cineasta também imprimiu elementos autobiográficos na produção, já que morou em Paris na década de 80, onde se envolveu romanticamente, mas acabou retornando aos EUA e casando-se com uma antiga colega do colegial. O desejo de entender os sentimentos passados tornaram possível esta experiência cinematográfica ímpar.
    Entender o amor. Nunca foi fácil ou tampouco será desvendado com facilidade. Os maiores poetas da humanidade buscaram as mais variadas estrofes que lhes permitissem exemplificar em páginas o sentimento mais conhecido e ao mesmo tempo tão distante do mundo atual, mas há de reconhecer em cenas disformes, closes distantes e cortes rápidos, que não necessariamente as palavras conduzem o amor. Imagens podem, e devem ser usadas como forma de diálogo. Não por acaso, Terrence Malick carrega uma curta filmografia, mas resultante de um trabalho intenso por amor a sétima arte e a vida.

Amor Pleno é uma incessante busca ao palpável. No alcance das mãos ou dos lábios, vislumbrando o horizonte, tudo é possível. Todos somos possíveis. Escolha.

Resenha originalmente publicada no site "Mirando no Cinema" .






quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Crítica: Além da Fronteira


Direção: Michael Mayer
Gênero: Drama
Duração: 96 min.

Ano: 2012


“(...) sensível e tenso, sensual e cheio de suspense.”
(The Hollywood Reporter)

“(...) um campo minado de conflitos sociopolíticos.”
(The Moviejerk)


Conflitos sociopolíticos e sexuais alternando-se com impressionante realismo

Em um ano de grandes e aguardados lançamentos cinematográficos – de longas jornadas de fantasia épica a remakes de filmes de terror – eis que surge uma obra relativamente discreta em comparação com os blockbusters, mas de profunda e ousada complexidade temática: “Além da Fronteira” (Out in the Dark), do pouco conhecido diretor Michael Mayer. Retratando o contexto sociopolítico atual da zona de constantes conflitos entre Israel e Palestina, o filme de Mayer preza pelo realismo sem “enfeites” na sua narrativa quando fala da tensão e instabilidade sociais que permeiam ambos os povos. Entretanto, como ponto de partida a essa realidade desconfortável de insegurança e apreensão, a história narra o conturbado relacionamento homoafetivo entre o estudante palestino Nimr Mashrawi (Nicholas Jacob) e o advogado israelense Roy Schaefer (Michael Aloni).
Vê-se, então que os protagonistas são de “casas” inimigas, o que poderia transformar o filme numa espécie de Romeu e Julieta gay, mas não é isso o que acontece, já que, embora o drama amoroso entre eles seja o eixo da história, não se sobrepõe ao contexto no qual esta se desenvolve. Também não há muito tempo para sentimentalismo melodramático ou nada que, numa obra simplista e vazia viesse a preencher lacunas de roteiro. A começar pela duração acertada da película, de pouco mais de uma hora e meia, tudo é trabalhado com o máximo de brevidade possível, sem estender-se além do necessário, mas também sem pular as etapas da estruturação da história. A relação entre Nimr e Roy é mostrada com naturalidade, sem espalhafato, sem intenção de “chocar”, embora, certamente, a fraca bilheteria no Brasil aponte que este ainda é um país que prefere ver a homossexualidade como tema de humor (vide o sucesso nacional “Crô”) a encará-la com a devida seriedade, ainda mais quando intercalada por questões críticas tão contemporâneas.
Mayer deixa bastante claro desde os instantes iniciais do filme seu propósito de evidenciar o abismo entre as duas culturas e o perigo de tentar transpô-las – um exemplo é a cena em que Nimr se esconde da patrulha israelense para não ser pego ao atravessar a fronteira que separa ambos os povos. O filme, cujo ritmo é fluente e não se perde em questões cronológicas, constrói paralelamente ao relacionamento de Nimr e Roy (que representam, em segundo plano, a dificuldade de entrar em contato com outra cultura) todo um clima de tensão e até certa paranoia; cruzar a fronteira é sempre perigoso, arriscado, alimenta suspeitas de terrorismo e espionagem, suscetíveis a perseguição e, muito comumente, assassinato – como ocorre com um amigo de Nimr que ele vê sendo executado a sangue frio.
Os momentos mais tensos do filme se concentram justamente em Nimr, primeiro porque sua família desconhece a orientação sexual dele; em segundo lugar porque seu irmão mantém um depósito de armas em casa, devido a certos envolvimentos ilícitos com gente “de costas quentes”. Em ambos os casos, como é previsível, a família rui por completo: a descoberta da homossexualidade de Nimr o faz ser expulso de casa, ao mesmo tempo em que tanto ele quanto a família são considerados suspeitos quando o depósito é descoberto.
O clima de perseguição que preenche a projeção fornece pouco tempo para a relação amorosa dos protagonistas, mas isto parece ser premeditado pelo roteiro e direção de Mayer, uma vez que os momentos em que eles estão juntos são significativos e funcionam como eixos estruturais onde a crítica política e a denúncia da intolerância social à mistura de culturas se sobrepõem a diálogos românticos. Ainda assim, há, de fato, cenas em que a intensidade da paixão entre eles é evidenciada, com ângulos inteligentes e meio implícitos que se inserem na história com precisão.

Assim, conclui-se que “Além da Fronteira” é um filme difícil de digerir, sem dúvida... não por ser ruim, mas por retratar duas temáticas delicadas aqui entrelaçadas numa teia de realismo e injustiça impressionantes.
Ainda que o drama da relação conturbada entre Roy e Nimr seja o epicentro do filme, é interessante ver como os conflitos sociopolíticos assumem alternadamente o primeiro plano da obra, tornando os protagonistas meras vítimas de uma realidade cruel e opressiva, não apenas por sua opção sexual (se bem que esta é um "agravante" no conjunto da trama), mas por viverem na fronteira entre regiões em constante tensão, onde nunca se pode dizer, de fato, que estão em paz ou seguros. Entenda-se por “fronteira” tanto a delimitação geográfica dos espaços que os separam quanto o limite metafórico entre seus mundos pessoais.


Conceito: Muito bom
Nota: 8,0

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Crítica: O Morro dos Ventos Uivantes




Direção: Andrea Arnold
Gênero: Drama/Romance
Duração: 128 min.
Ano: 2011

“Audacioso, um filme bárbaro”
( The Guardian)

“Brutal e comovente”
(Daily Telegraph)

“Glorioso”
(The Times)

Uma perspectiva crua e visceral do romance clássico

Como grande parte dos clássicos da literatura universal, a obra “Wuthering Heights”, da inglesa Emily Brontë, tem longa carreira em versões para cinema e outras mídias. Algumas dessas adaptações tiveram grande aceitação de público e crítica, como foi o caso do filme de Peter Kosminsky, estrelado por Ralph Fiennes e Juliette Binoche; outras, ou por não abordarem a obra em sua completude literária, ou por dar preferência a uma perspectiva diferente da mesma obra (a fim de evitar ser “mais do mesmo”), não ganham o merecido destaque e são até incompreendidas pelos leitores mais rigorosos do livro. Nesta última categoria está o filme de Andrea Arnold, a mais recente versão cinematográfica do romance de Brontë, que possui uma abordagem notavelmente distinta – às vezes até gritante – da obra.
O filme narra a história icônica da família Earnshaw, moradores do Morro dos Ventos Uivantes, cujo patriarca, depois de uma longa viagem, traz consigo um garoto que achara perdido, a quem batiza com o nome de Heathcliff. Já aqui duas considerações ficam claras e intencionalmente diferentes do livro: primeiro, os Earnshaw não são uma família rica, vivendo num simples casebre; segundo, Heathcliff é negro. Chegando à casa, Heathcliff é, a princípio, hostilizado por Cathy, a filha legítima do dono da casa; entretanto, com o tempo, à medida que Cathy se aproxima de Heathcliff e começa a nascer um vínculo intenso entre eles, o irmão mais velho dela apenas intensifica seu ódio pelo garoto, a quem vê como um intruso na casa. Com a morte do dono da casa, Heathcliff passa a ser humilhado e castigado constantemente por Hindley, ao mesmo tempo em que desenvolve um sentimento de posse a mágoa em relação a Cathy, a quem ama, mas por quem é abandonado quando ela aceita o pedido de casamento de Edgar Linton, um jovem rico da região. Sentindo-se traído, Heathcliff foge do Morro dos Ventos Uivantes, retornando apenas alguns anos depois, com dinheiro, sem saber direito o que fazer, mas magnetizado pelo poder exercido sobre ele por Cathy.
Essencialmente, o filme preserva a identidade da obra em que se baseia, embora tome liberdades criativas que muitos espectadores desaprovam; não há aqui a retratação de valores aristocráticos (não em destaque), mas uma visão visceral sobre as diferenças entre “os mundos” dos protagonistas e seus anseios atemporais. Se, por um lado, essa atitude de Arnold pode ser considerada ‘subversiva’ em relação ao contexto do romance, por outro lado traz uma interessante inovação ao mesmo, ao abordá-lo sob uma perspectiva mais realista. No caso da representação de Heathcliff como negro, provavelmente a diretora quis ressaltar que além da diferença de classe que o separava de Cathy, havia também a questão racial, numa época em que imperava a rigidez vitoriana (a qual é até mencionada por Hindley: “ele não é meu irmão; é só um negro!”).
Outro aspecto crucial na abordagem de Andrea Arnold foi a ênfase na infância dos protagonistas; mais da metade do filme retrata o desenvolvimento da relação entre eles quando crianças ainda, das descobertas da amizade e do amor reprimido aos sofrimentos e decepções, brigas e outros conflitos daquela fase. De fato, as interpretações das crianças como os jovens Heathcliff e Catherine, respectivamente, ficaram louváveis; ambos demonstraram uma química em cena fantástica, sobretudo o menino carrancudo e malcriado. Para a fase adulta, James Howson e Kaya Scodelario (em substituição a Natalie Portman) interpretam os protagonistas, acentuando suas características ou transmutando-as conforme a situação: Howson vive um Heathcliff amargo e magoado, mas que não hesita em ir humilhar-se diante de Cathy, enquanto Kaya traduz em gestos simples, poucas palavras e um olhar penetrante, todo o fascínio da mulher enigmática que casou-se com outro, mas mantém ainda o seu amor ciumento e irracional por ele.
Falando em aspectos técnicos, a escalação de um elenco desconhecido foi um grande acerto, já que assim as performances ficaram transparentes, de modo que os atores não puderam se “escorar” na fama eventual trazida por outros filmes dos quais poderiam ter participado ou por prêmios que tenham ganhado.
A fotografia e o figurino desta versão de “O Morro dos Ventos Uivantes” certamente enche os olhos tanto dos leitores de Brontë quanto de qualquer outro espectador; com um visual natural ao extremo, evidenciando a paisagem melancólica em que se passa a história, Arnold faz questão de que o ambiente tenha participação crucial no filme, fazendo com que o som do vento, a imagem de pássaros voando, o barulho da chuva e até mesmo o silêncio tenham uma linguagem significativa própria que, aliás, se sobrepõe à linguagem verbal com maestria na maior parte do filme. Curiosamente, o filme não possui trilha sonora – exceto o tema, “The Enemy”, da banda Mumford &Sons, que acompanha os créditos -, o que deixa a projeção com um caráter semelhante ao de documentário, onde há até a câmera subjetiva que acompanha e corre com os personagens, como se fosse um deles.

De fato, se “O Morro dos Ventos Uivantes” possui falhas, elas não estão na liberdade criativa de Andrea Arnold, mas em certas irregularidades de ritmo; como mencionado, mais da metade do filme se concentra na infância de Heathcliff e Cathy. Isto serviu para mostrar como a ligação entre eles foi gradativamente construída e aprofundada, mas teve um reflexo negativo no final. Não houve tempo suficiente para desenvolver melhor a relação entre os protagonistas adultos, o que é lastimável, pois tanto Howson quanto Kaya tiveram interpretações marcantes, embora muito reduzidas pela falta de um roteiro que lhes permitisse maior envolvimento. Faltou aquela dose de romance que devia emergir no fim e deixar as marcas tão conhecidas na literatura; não que não haja romance aqui também, mas é que ficou tudo tão rápido que temos a impressão de que a diretora, depois do ritmo lento do início, tinha pressa em acabar logo o filme. 


Conceito: Muito Bom
Nota: 8,0

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

RESENHA NOSTÁLGICA: NOSFERATU - UMA SINFONIA DE HORROR


Direção: F.W.Murnau
Gênero: Terror
Duração: 85 min.(com variações de edição)

Ano: 1922

Primeiro filme sobre vampiros permanece clássico e inesquecível

Embora Bram Stoker não tenha sido o precursor do vampirismo na literatura, é inegável que foi o seu famoso romance “Drácula” que universalizou, por assim dizer, a figura popular do vampiro, que seria mais tarde abordada incansavelmente, não apenas no papel, mas nas telas também. Coube ao cineasta alemão F. W. Murnau a primeira adaptação da obra de Stoker no longínquo ano de 1922; adaptação essa que é considerada icônica e a melhor de todos os tempos, não necessariamente no quesito fidelidade à obra (até porque os direitos autorais não cedidos impediram um aproveitamento maior da história), mas em relação à própria abordagem do vampirismo no cinema.
         Utilizando-se com inteligência e perícia dos poucos recursos disponíveis para seu tempo, Murnau conseguiu a façanha ímpar de criar todo um universo sombrio, que equilibra tons de sombra e luz bem ao estilo expressionista, em voga na época. De fato, o clima gótico da obra de Stoker é referenciado constantemente nesse jogo de claro/escuro que alterna momentos de tensão e melancolia com maestria, se levarmos em conta o fato de que esta é ainda uma produção em preto e branco, bastante “tosca” para os padrões cinematográficos evoluídos de hoje em dia. Ainda assim, tamanho é o poder de “Nosferatu” que é impossível ficar indiferente às imagens e cenas construídas na justaposição da luz como, por exemplo, no momento em que a sombra ameaçadora do vampiro, esgueirando-se pela parede, aproxima-se da mulher cujo sangue ele precisa provar.
         A representação do vampiro encarnado por Max Schrek é, com certeza, uma das mais célebres e assustadoras já vistas: careca, curvado, com dentes pontiagudos e projetados para fora da boca, unhas compridas e sobrancelhas espessas; visualmente repulsivo, Schrek adiciona à sua imagem uma interpretação inspirada, onde suas expressões faciais, oscilando entre a malignidade e a tristeza, conferem ao personagem a essência do Drácula do livro. Essas variações na expressividade dos personagens são de fundamental importância no desenrolar do filme, uma vez que não há diálogos – é um filme mudo. Assim, como nas obras de Chaplin, é a linguagem gestual/facial que determina a intensidade de sentimentos, sensações e anseios dos personagens, aqui convenientemente transmitidos e captados por Murnau.

         Por fim, há que se destacar a excelente e tétrica trilha sonora de Hans Erdmann, que preenche a projeção com seus tons sombrios, sempre deixando subentendido que algo está prestes a acontecer, mantendo o espectador em crescente – mas, receosa – expectativa. A música do filme justifica com perfeição o subtítulo de “Eyne Symphonie des Grauens”; de fato, é uma sinfonia de horror magistral.


Conceito: Excelente
Nota: 10,0



O filme “Nosferatu” está disponível online no Youtube, NESTE LINK.