quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Crítica: O Leitor



Direção: Stephen Daldry
Gênero: Drama
Duração: 124 min.
Ano: 2008

...uma obra-prima... (New York Observer)

Filme de Daldry fala sobre verdades, passado, sexo e vergonhas

Quando o talento de um diretor encontra uma obra profunda à qual pode dar vida nas telas, o resultado tende a ser bastante positivo; entretanto, se o diretor e os demais envolvidos na produção conseguem trazer para o filme as atuações responsáveis de atores comprometidos com o verdadeiro significado da palavra ‘cinema’, o resultado passa de positivo a fascinante. Este definitivamente é o caso de “O Leitor” (The Reader).
     “O LEITOR” é um filme perturbador em sua trama, multifacetado e pulsante, do diretor Stephen Daldry (aclamado por seu trabalho em “AS HORAS”). Baseado no best-seller de Bernhard Schlink – com grande fidelidade –, o longa se passa na Alemanha devastada e em processo de reconstrução, logo após a Segunda Guerra. 
      No início, vemos Michael Berg (Ralph Fiennes, de “O JARDINEIRO FIEL”) recordando-se de sua juventude, quando, em 1958, aos quinze anos de idade, conheceu Hanna Schmitz (Kate Winslet, de “TITANIC”, sempre impecável), uma mulher solitária e misteriosa, bem mais velha que ele, com quem começa a ter uma espécie de iniciação sexual.  Daí em frente, ocorre o que parece ser um pacto: Michael lê trechos de livros para Hanna, já que ela gosta de ouvir leituras. Em troca, ela faz amor com ele, num ritual que, se considerarmos o filme como um todo, assemelha-se a um tipo de terapia recíproca, uma vez que cada um deles transparece ao outro e para nós, espectadores, a sua incompletude existencial; ambos, assim como o restante de nós, possuem segredos, vergonhas, limitações pessoais. Entretanto, essa situação fica delicada com o passar do tempo, pois seu relacionamento estreita-se de forma crucial e irreversível, magoando a ambos e “redimindo-os” de seus conflitos pessoais através da companhia e do sexo.
       O caso deles dura apenas um verão, depois do qual os dois acabam por se separar e, quando Michael está na faculdade de Direito, assiste ao julgamento de Hanna, acusada de participar dos horrores do campo de concentração de Auschwitz. A partir daí, a história entra na parte em que se emaranha nas buscas de respostas, valores, e na perturbação em que Michael fica, impotente diante daquela situação, que vem reabrir antigas feridas e pôr em questão tudo aquilo em que ele acredita(va) a respeito de suas próprias experiências de vida.
O desenrolar doloroso e sem perspectivas de um “final feliz” para os protagonistas, cada qual preso em sua própria teia de sofrimentos e vergonhas ancoradas no passado, mas que estão sempre vindo à tona, conduz a dois principais caminhos: Hanna enfrentando, afinal de contas, seu maior medo/vergonha e superando este desafio, mesmo que sua redenção se faça através da expiação pela morte. Já Michael avalia, ainda hesitante, a profundidade e a influência de seu passado no agora, numa perspectiva angustiante e com resquícios de remorso que o acompanhará para sempre. Tudo isso ocorre de forma arrebatadora e psicologicamente progressiva, sem precipitações ou lacunas.
            Obviamente, faz-se necessário dizer algo acerca das características técnicas de uma obra tão ímpar. “O LEITOR” foi indicado a cinco Oscars – inclusive os cobiçados “Melhor Filme” e “Melhor Diretor” - destacando-se com “Melhor atriz” - Kate Winslet, que também ficou excelente na maquiagem pesada de idade avançada, já no final da película, com uma interpretação fantástica. Stephen Daldry conduz o filme de forma afiada, oscilando entre a linha tênue da perturbação e da comoção, o que imprime à trama todo o impacto necessário, fazendo-nos refletir sobre a importância daquilo a que chamamos "verdade" e "moralidade", quando vemos, por exemplo, a postura resignada de Hanna ou a covardia sistemática de Michael, conforme ele amadurece e deixa para trás seu lado mais impulsivo.      
A respeito do personagem Michael, certamente o ponto central do filme, já que este se estrutura em suas memórias (afinal de contas, ele é “o leitor”), há que se destacar interpretação de David Kross, que incorporou o jovem Michael muito bem, encaixando-se perfeitamente na interpretação posterior de Ralph Fiennes como o Michael mais velho. É interessante ver o contraste de suas atuações, que se agregam de formas muito diferentes: Kross, como o jovem arrebatado no início; Fiennes como um sujeito introspectivo. Kate Winslet, então, ao ganhar o Oscar e o Globo de Ouro por melhor atriz, dispensa quaisquer comentários a respeito de sua interpretação. 

      Quando termina “O LEITOR”, uma projeção que perturba e intriga, ficam muitas questões a ser debatidas: o quanto a verdade ou a moralidade são fundamentais? Quem é autor da verdade? A sociedade é guiada por que valores? Até que ponto podemos intervir no curso dos eventos que se desencadeiam ao nosso redor? “O LEITOR” não fornece respostas, uma das razões pelas quais ele é tão instigante. Basicamente, ele nos questiona sobre aquilo a que nem nos damos ao trabalho de pensar. Fica a mensagem do pôster: "Resolva este mistério"; mensagem aplicada ao conteúdo do longa-metragem e às nossas próprias existências, tão vazias às vezes.


Conceito: Excelente
Nota: 10,0



CURIOSIDADES SOBRE ESTE FILME

v Kate Winslet foi, desde o princípio, a atriz que o diretor Stephen Daldry queria para o papel de Hanna Schmitz, mas houve contratempos, já que ela estava “presa” às filmagens de “Foi Apenas um Sonho”;
v A atriz Nicole Kidman chegou a ser contratada para substituir Winslet, mas também teve que desistir do papel devido à sua gravidez;
v Juliette Binoche chegou a ser cotada para o papel;
v Essa demora na escolha de uma atriz deu tempo suficiente para que Kate Winslet finalmente pudesse aceitar o papel;
v Os produtores Sydney Pollack e Anthony Minghella morreram antes da conclusão do filme;
v “O Leitor” foi indicado aos Oscars de: Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Atriz (no qual venceu), Melhor Diretor e Melhor Fotografia;

v O filme foi indicado também às categorias principais do Globo de Ouro e do BAFTA, vencendo com “Melhor Atriz” em ambos.

TRILHA SONORA



No vídeo a seguir, o diretor Stephen Daldry comenta o filme:




Para conhecer mais sobre o contexto do filme, acesse o vídeo seguinte, no qual Stephen Daldry e David Kross falam mais detalhadamente sobre a produção e suas perspectivas: http://www.youtube.com/watch?v=WajGBlGbS_c

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Crítica: Perfume: A História de um Assassino




Direção: Tom Tykwer
Gênero: Suspense
Duração: 147 min.

Ano: 2006

 "Uma adaptação fiel e engenhosa do best-seller do alemão Patrick Süskind” (Isabela Boscov, Revista Veja)

Tom Tykwer e seu filme intensamente sensorial

Em uma época em que inúmeras adaptações de romances adolescentes, remakes de terror e outras produções de gosto discutível invadem os cinemas, é uma agradável surpresa deparar-se com um filme diferente, que chega às telas pelas mãos de Tom Tykwer, diretor cujo nome talvez não seja ainda tão conhecido, mas que entrega uma obra verdadeiramente digna de ser vista.
“Perfume: A história de um assassino” é a adaptação do aclamado romance de Patrick Süskind, e se passa na França do século XVIII, girando em torno de Jean Baptiste Grenouille (Ben Whishaw, em interpretação magistral), um rapaz que nasce com um incrível dom: o olfato mais sensível e apurado do planeta. Sendo capaz de reconhecer e identificar qualquer aroma, Jean Baptiste passa a ficar obcecado pelos métodos de preservação das essências olfativas (cheiros) que o cercam, tornando-se aprendiz de um grande – e arrogante – perfumista francês, vivido por Dustin Hoffman, em uma de suas atuações hilárias.
Entretanto, depois de desvendar diversos segredos da prática de produção de perfumes finos, Grenouille percebe que seu próprio corpo não exala nenhum odor, e se convence de que precisa criar o perfume mais puro e poderoso já inventado. É a partir dessa obstinação pelo perfume perfeito que o filme de Tykwer faz jus ao subtítulo de “história de um assassino”; Grenouille descobre que a essência final e definitiva do perfume ideal deve ser extraída de jovens virgens mortas.
Evidentemente, este não é um mero filme de serial killer, até porque não há destaque para cenas de violência (decisão acertada do diretor, que, tal qual Jonathan Demme em “O silêncio dos inocentes”, prefere abordar a psicologia do vilão e criar um clima de tensão crescente essencialmente pela história). O foco maior de Tykwer é mostrar as circunstâncias intrínsecas/extrínsecas (instinto x sociedade) que levaram Jean Baptiste gradualmente a se tornar um assassino tão frio, embora sem perversão, em sua busca desenfreada pelo aroma sublime. É interessante observar que Grenouille não é necessariamente um típico perfil de assassino: ele não sente prazer ou alegria em matar; simplesmente extrai a essência de suas vítimas com a mesma naturalidade com que extraía das flores e ervas anteriormente.
Falar em Grenouille torna necessário citar, ainda que apenas por menção, o trabalho de Ben Whishaw, o ator que demonstrou incrível talento na pele deste personagem, que é igualmente gênio e monstro. De poucas palavras, quase um autista, o Jean vivido por Whishaw certamente convenceu – e muito bem – os leitores da obra de Süskind, bem como os espectadores que sentiam falta de um serial killer complexo, neste caso fascinado e seduzido pelos cheiros que o cercam. No restante do elenco, destacam-se Rachel Hurd-Wood,( do recente “O retrato de Dorian Gray”) e Alan Rickman (o eterno Snape de “Harry Potter”), que lutará para evitar que sua filha se torne a vítima final de Grenouille.
Este tópico dos cheiros, em especial, foi o maior triunfo de “Perfume”, do ponto de vista cinematográfico; Tykwer demonstra uma assustadora habilidade de projetar na tela todas as sensações olfativas que seu filme propõe. A cena inicial, sobretudo, que mostra a imundície do mercado a céu aberto em que Jean Baptiste nasceu é chocante. O espectador consegue “mentalizar” com precisão os cheiros desagradáveis de peixes, vísceras, vômitos e animais em decomposição que empestam aquele lugar sem o mínimo de higiene.

O ponto negativo de “Perfume”, ainda que não seja exatamente uma falha, mas um exagero do diretor é, ironicamente, seu clímax surreal, que provavelmente frustrará aqueles que não conhecem o romance no qual o filme se baseia. Não é possível falar dele sem dar spoiler, mas basta saber que, na ânsia de fazer o espectador perceber a grandeza absoluta do perfume perfeito, Tykwer cometeu o deslize de intensificar o efeito dessa essência de forma nada sutil, utilizando-se de apelação visual. Contudo, isto não estraga o filme; apenas pode frustrar um pouco as expectativas criadas acerca de seu desfecho. De toda forma, avaliando “Perfume” como um todo, o saldo final é satisfatório e deixa no ar um cheiro de intriga e tensão que perdura, mesmo depois dos créditos finais.




Conceito: Ótimo
Nota: 9,0

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Crítica: O retrato de Dorian Gray




Direção: Oliver Parker
Gênero: Suspense
Duração: 112 min.

Ano: 2009

“Uma bem-cuidada e surpreendente adaptação da obra-prima de Wilde”

 (Folha de São Paulo)

Nova versão do clássico é mais sombria do que literariamente fiel

Quando foi lançado, ainda no século XIX, o romance “O retrato de Dorian Gray”, obra-prima de Oscar Wilde, tornou-se bastante polêmico devido à sua crítica social e o sarcasmo muito bem pintados na trama do rapaz inglês cuja beleza ímpar se torna sua obsessão e maldição. Como outros clássicos, o livro foi adaptado inúmeras vezes para o cinema, até que chega, agora, a nova versão do romance que não envelhece – literalmente – dirigida por Oliver Parker.
Na trama, conhecida por praticamente todo mundo, o jovem e ingênuo Dorian Gray (Ben Barnes, de “As crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian”) chega a Londres para tomar posse da herança de seu avô recentemente falecido. Logo conhece Basil Hallward, pintor que se mostra admirado pela beleza do rapaz, e se propõe a pintar o retrato dele. Paralelamente, Dorian conhece Henry Wotton (Colin Firth, vencedor do Oscar de Melhor Ator por “O discurso do rei”), um nobre hipócrita e sarcástico, representante da elite inglesa e de suas falhas morais. Wotton vai, aos poucos, influenciando Dorian a se degradar, entregando-se a vícios e “pecados”.
Quando Basil finalmente termina o quadro, Dorian fica de tal forma fascinado pelo fato de aquele quadro ficar intacto para sempre, enquanto ele, o “modelo” envelhecerá e perderá a beleza, que faz o famoso pacto de trocar a alma pela juventude eterna. A partir daí, a vida de Dorian desmorona moralmente, embora ele não note isso à primeira vista. O quadro vai envelhecendo em seu lugar, acumulando também os erros e a corrupção interna do jovem.
Dadas estas informações acerca do enredo do filme, façamos uma análise geral de seus aspectos; a princípio, o protagonista Ben Barnes representa muito da essência do personagem de Wilde, apesar de não ser fisicamente semelhante a ele. A interpretação de Barnes da ingenuidade à frieza, no decorrer do filme ficou ótima, justamente porque não houve “atropelos” ou pressa em fazer com que Dorian passasse de mocinho a vilão de um momento para outro; ele se corrompe aos poucos, gradualmente. O resultado é satisfatório o bastante para mal reconhecermos que o homem sexual e moralmente pervertido do final do filme é o mesmo que mal sabia fumar no início.
Não é possível falar em interpretação sem mencionar o destaque de Colin Firth como Lorde Wotton; a espontaneidade de Wotton em expor suas frases de filosofia particularmente distorcidas soa tão convincente que é fácil compreender por que a Folha de São Paulo disse que “Colin Firth rouba a cena como Lord Wotton”. Contudo, o brilhantismo de Firth não chega ao final do filme; na parte final, quando as décadas têm passado, Wotton, mais velho e sensato não consegue ser tão interessante quanto na primeira parte; além disso, suas falas são muito previsíveis nessa fase, tornando seu personagem um tanto dispensável. 
Quanto aos aspectos técnicos, o filme de Oliver Parker é visualmente deslumbrante; os figurinos pomposos de época, a fotografia sombria e, claro, o famigerado quadro são fatores que enchem os olhos, especialmente porque os responsáveis por roteiro, produção e direção acharam por bem manter o contexto da obra, ainda que a adaptação tenha tomado rumo diferente a certa altura.
Percebe-se a intenção de Parker em trazer uma versão que fosse fiel ao livro até onde fosse absolutamente necessário, mas que deixasse uma marca própria; esta marca é perceptível no estilo sombrio da projeção, com seus momentos de suspense e tensão que se aproximam dos filmes de terror, onde não faltam os elementos clássicos dos fantasmas, pesadelos e uma dose não tão discreta de violência e sangue.
De fato, o filme não é inteiramente correspondente ao romance (afinal, não existe nenhum filme que tenha atingido esse feito, nem é propósito de nenhum cineasta que aja racionalmente). O que conta, de verdade, é o delineamento psicológico dos personagens em primeiro plano, e isso o filme consegue transmitir muito bem: da degradação da sanidade de Dorian Gray à admiração homoerótica de Basil Hallward por ele, por exemplo; em segundo lugar, as críticas sociais à hipocrisia e à supervalorização do dinheiro e da beleza. Isto também é bastante transparente tanto no livro quanto no filme. Esses dois fatores são suficientes para valer a pena ver a película.



Conceito: Ótimo
Nota: 9,0

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Crítica: O Segredo da Cabana




Direção: Drew Goddard
Gênero: Terror
Duração: 95 min.
Ano: 2012

“O filme de terror mais inteligente dos últimos tempos!”
(Ain’t it Cool News)


 Realizador de “Os Vingadores” traz um filme surpreendentemente original

O típico grupo de adolescentes decide passar o fim de semana numa cabana isolada no meio de uma floresta sombria, até que, involuntariamente, acabam fazendo algo de tremendamente errado e libertam forças malignas que irão persegui-los e matá-los, um a um. Por esta visão inicial, “O segredo da cabana” (The Cabin in the Woods) parece mais um desses filmes teen absurdamente clichês e desnecessários, copiados e reciclados infinitamente em Hollywood. Mas, para a sorte dos cinéfilos que vivem bocejando por uma produção de terror decente nos dias atuais, o filme de Drew Goddard (Os Vingadores) surpreende, e no bom sentido.
Além da ótima direção de Goddard, o roteiro meticulosamente planejado de Joss Whedon e do próprio diretor é uma pequena obra-prima que satiriza, de forma aparentemente séria, os filmes de terror em geral. Nesse sentido, o filme se assemelha a "Pânico" (Scream), de Wes Craven, embora sob uma perspectiva diferente. Tudo em “O segredo da cabana” possui uma subcamada de interpretação, por baixo da trama aparentemente óbvia e batida.
Na história, temos os personagens típicos do cinema de terror convencionais: a “virgem” tímida, a loira “vadia”, o atleta machão, o rapaz inteligente e gentil e, claro, o idiota “chapado”. O primeiro destaque é que cada um desses personagens foi “escolhido” para estar ali, embora não saibam disso; todos fazem parte, involuntariamente, de uma espécie de jogo macabro, no qual são meros peões no tabuleiro. Na cabana, onde estão sendo vigiados o tempo todo, cada uma de suas ações é premeditada pelos “organizadores” do jogo, que os influenciam em tudo: da decisão de se separarem, na hora do perigo (atitude que tem a finalidade clássica de deixá-los vulneráveis) até o “clima” para o sexo, que é severamente punido.
Essas atitudes manipuladas dos personagens conferem à história uma veia de humor constante, embora não de forma escrachada; as falas dos personagens revelam as piadas e referências cômicas a diversos filmes do gênero. As interpretações não são brilhantes, mas até nisso o roteiro é inteligente, pois era necessário que os personagens fossem bastante obtusos diante do óbvio, para se tornarem presas fáceis das criaturas malignas que os perseguem. Quanto às “criaturas”, estas são dos mais variados e assustadores tipos: de zumbis, passando por monstros marinhos, palhaços assassinos, morcegos gigantes, fantasmas e mais uma horda de pesadelos que vemos em toda a sua plenitude asquerosa no clímax do filme.
Ao final, é impossível não ficar perplexo diante da complexidade e organização do “centro” que comanda a chacina dos jovens, que mistura rituais de sacrifício humano, Big Brother e Cubo, tudo muito bem amarrado e explicado pela sempre competente Sigourney Weaver, que faz uma ponta no final como a Diretora daquele circo de horrores.

Como ponto negativo, o que decepciona um pouco é o excesso de CG em algumas cenas sangrentas, que soam muito artificiais em certos pontos; porém, o que compensa é que não economizaram na tinta vermelha também, que dá um verdadeiro banho de sangue no final... literalmente.


Conceito: Ótimo
Nota: 9,0

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Crítica: A Hora do Espanto



“Excitante, cheio de estilo e muito divertido!”
(Scott Mantz, Acess Hollywood)

Refilmagem de clássico oitentista derrapa, mas consegue se equilibrar

O filme “Fright night”, de 1985, dirigido por Tom Holland (Brinquedo Assassino), é um daqueles clássicos trash para adolescentes e, de certa forma, tornou-se um ícone do vampirismo jovem daquela década, ao lado de “Garotos Perdidos”. O filme misturava comédia com o horror pastelão típico das produções B de orçamento baixo. Agora, aproveitando a onda de “ressurreição” dos vampiros nas mídias atuais, o diretor Craig Gillespie traz uma refilmagem que fica muito aquém da obra original, mas consegue divertir o público com as atuações razoáveis de Colin Farrell e Anton Yelchin.
O filme de Gillespie não tem a espontaneidade e o roteiro despretensioso e engraçado da película dos anos 80, mas também não é um filme sem identidade. Percebe-se a preocupação do roteiro e da direção em, de fato, atualizar a história e trazer para os dias atuais a divertida situação de um adolescente que descobre que o seu novo vizinho é um vampiro. Charley (Yelchin), o protagonista, a princípio não acredita nisso, mas, quando estranhos acontecimentos se desenrolam nas redondezas, ele percebe a dimensão do perigo e tenta encontrar uma forma de eliminar o monstro, ao lado de sua namorada e sua mãe, ambas também incrédulas sobre essa história de vampiros.
É interessante que o remake não tenha alterado a personalidade de seus vampiros, como as produções atuais de gosto duvidoso acerca dos eternos sanguessugas. Aqui, a essência e a mitologia vampirescas são preservadas de forma exemplar; vampiros queimam ao sol, não têm reflexos (nem aparecem em câmeras!), temem crucifixos e alho e, o principal, são seres sensuais, com uma sexualidade pulsante. Colin Farrell está muito à vontade em seu papel de vilão, embora seu vampiro seja mais canastrão do que charmoso. E, falando em canastrice, há que se citar Peter Vincent, o personagem de David Tennant, que vem a ser o mais interessante e engraçado do filme; ele é um tipo de ilusionista fajuto e covarde que apresenta espetáculos e um programa de televisão em que se autodenomina um especialista em vampiros. Ele será o auxiliar de Charley, mesmo que a contragosto, em sua missão de exterminar o vampiro Jerry (Farrell) e tem algumas das falas mais cômicas da produção – excetuando-se a referência hilária a “Crepúsculo”.
Contudo, em alguns aspectos, o novo “A Hora do Espanto” derrapa quando devia agradar mais o público; uma de suas maiores falhas é o excesso de CG nas cenas de violência, incluindo as mortes exageradamente pirotécnicas dos vampiros. O sangue também é frustrante para os amantes do gore; pouco se vê a boa e velha tinta vermelha ou um xarope qualquer, pois até aqui prevalece a computação gráfica com seu sangue artificial em pixels.

Então, no fim das contas, “A Hora do Espanto” não é, decididamente, um filme imperdível nem impecável; pelo contrário, contém algumas falhas e um roteiro apenas sofrível. Entretanto, consegue se fazer presente, quando comparado ao gigantesco número de tolices hollywoodianas produzidas apenas para distrair – e mal – o público do gênero terror/comédia teen, raramente agraciado com uma obra interessante e criativa.



Conceito: Bom
Nota: 7,0

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Crítica: O Impossível

O impossível





Filme espanhol se destaca pelo realismo e por interpretações precisas

Raramente aparece no cinema uma obra sobre catástrofes naturais que consiga equilibrar a emoção dos personagens e a preocupação com os aspectos técnicos, de forma a proporcionar uma experiência realista e sensível ao espectador. Felizmente, o novo filme de J. A. Bayona consegue atingir esse objetivo de maneira única e precisa. “O Impossível” (Lo Imposible) é uma produção que explora a grande tragédia do tsunami que atingiu o sudeste asiático no final de 2004, e retrata a devastação trazida pela catástrofe com o máximo de realismo, mas sem usar isso como pretexto para pecar no roteiro ou direção, como fez Rolland Emmerich em “2012”, por exemplo.
A história, anunciada como baseada em fatos reais, foi inspirada no livro autobiográfico de Maria Belón, uma sobrevivente do famigerado tsunami que, no momento do desastre estava na Tailândia, em férias com a família. Depois do tsunami, no qual perde contato com o marido e os filhos (ficando apenas com o menino mais velho, Lucas), Maria inicia uma jornada verdadeiramente épica para sobreviver em meio ao caos e reencontrar a família.
O filme de Bayona acerta em cheio ao retratar o drama da família de Maria e, por extenso, abordar o desespero de tantas outras famílias que, mesmo separadas por fatores extremos, lutam para superar os obstáculos e permanecer unidas. Esta é uma mensagem evidente do filme, transmitida com perfeição pelo elenco e pela direção, que equilibram drama e sensibilidade de maneira sublime. No elenco, a bela Naomi Watts é a protagonista, Maria, a mãe dedicada à família, que passa pelos maiores suplícios, tanto psicológicos – no desespero para encontrar ajuda - quanto físicos, uma vez que depois do tsunami ela fica bastante ferida, cheia de hematomas e cortes (destaque para a excelente e nauseante maquiagem de efeitos). Tão precisas são as expressões faciais de alegria, tristeza, dor, sofrimento e emoção de Watts que é fácil perceber o motivo pelo qual ela foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz por este papel.
As demais interpretações também estão impecáveis, com ênfase para o ator mirim Tom Holland, que vive Lucas, o filho mais velho de Maria; ele é o garoto forte que se tornará o maior apoio da mãe e não é exagero dizer que ele é a sua salvação. Outro que dispensa comentários é Ewan McGregor, que interpreta Henry, o marido de Maria, igualmente desesperado por encontrar a família depois da devastação. McGregor é um daqueles poucos atores que fazem jus à expressão “falar com os olhos”; ele transmite o máximo de sinceridade e espontaneidade em suas interpretações e é realmente impossível não se emocionar com a angústia dele, seu choro e sua esperança quase quixotesca em reencontrar a família.
A tragédia em si, o tsunami e a devastação foram extremamente bem elaborados; o momento da chegada da onda gigante no hotel onde a família de Maria está hospedada é impactante. É interessante que tudo tenha sido planejado com realismo nessas cenas de destruição; utilizou-se água “real”, não o CG ridículo e artificial, como do já mencionado filme de Emmerich. As cenas que se seguem, em meio à lama, também mostram a habilidade de Bayona em captar os melhores ângulos de cena, tornando a obra visualmente forte e visceral, sem perder o bom gosto.
“O Impossível” é, então, um drama sensível e equilibrado, sem melodrama, mas que evidentemente foi feito para emocionar. Esse objetivo audacioso é duplamente alcançado através da história dolorosa de uma tragédia que separou (quando não destruiu) pessoas e também por meio da representação cativante da importância da família e da força de vontade do ser humano, sua capacidade de fazer o bem. Bayona prova com maestria que, a despeito do título do filme, nada é impossível para o espírito humano.




Conceito: Excelente
Nota: 10,0

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Crítica: Desejo e Reparação



Desejo & Reparação


Filme de Joe Wright é muito mais denso e complexo do que romântico

"O mais próximo da perfeição possível"
(Daily Mirror)
Joe Wright já havia demonstrado muita habilidade em dirigir adaptações literárias ao realizar “Orgulho e Preconceito”, filme que lhe rendeu reconhecimento de público e, principalmente, de crítica. Dessa vez ele retorna à direção de uma adaptação do best-seller de Ian McEwan, “Atonement”, ressaltando com maestria a face sombria e de caráter mais psicológico do que romântico de uma história cheia de segredos e ressentimentos em constante atrito.
A história, que se passa no contexto tenso da Segunda Guerra, fala do romance entre Cecilia (Keira Knightley) e Robbie (James McAvoy), amantes que vivem um caso mais ou menos secreto: ela é filha de uma família rica, enquanto ele é apenas o filho de uma empregada da casa de Cecilia. Paralelamente, e com um destaque maior, conhecemos Briony (Saoirse Ronan), irmã mais nova de Cecilia, recém-chegada à adolescência, mas extremamente perspicaz e de uma inteligência aguda. Briony, mesmo muito jovem, tem um talento incomum com a escrita, uma imaginação muito fértil e complexa, razão pela qual ela parece mais madura intelectualmente do que é, de fato.
Justamente é essa habilidade criativa de Briony que, de forma inconsequente, embora consciente, destruirá as ilusões de amor de sua irmã, desestruturará sua família e, por fim, virá a ser sua própria destruição moral. A partir do momento em que Briony interpreta uma estranha cena entre Cecilia e Robbie com uma conotação puramente sexual, sua imaginação constrói conexões erradas e, consequentemente, altera o futuro de todos.
O que diferencia “Desejo e Reparação” dos demais filmes rotulados como românticos é a soma entre os fatores técnicos que, no fim das contas, resultam em uma das melhores obras-primas contemporâneas do gênero romance/drama. Os destaques do filme são, sem dúvida, as irmãs Tallis; Keira Knightley, como sempre, não decepciona o espectador e interpreta uma Cecilia convincente, muito humana e longe dos estereótipos e clichês românticos. Ela é forte e demonstra uma independência em suas ações que agrada o público sem nunca perder o foco ou a identidade da personagem. Contudo, a interpretação mestra é a de Saoirse Ronan como a jovem Briony. É impressionante como a atriz consegue fazer de sua personagem a mais “detestável” e, mesmo assim, a que mais tem sentimentos, embora confusos. Ela apresenta todas as faces necessárias para oscilar entre a ingenuidade infantil e a malícia adulta, plenamente executadas no decorrer do filme.
A direção rigorosa, porém sensível, de Wright abre espaço para questionamentos durante e após a projeção, evitando atirar os fatos na cara de quem está do outro lado da tela. Em vez disso, acompanhamos gradualmente a transformação dos personagens com o tempo, bem como as reviravoltas na história, tudo meticulosamente organizado e apresentado muitas vezes de forma implícita, razão pela qual o filme deve ser visto mais de uma vez para sua completa interpretação. Quem está a fim de diversão e dramalhão bobo, é melhor procurar um dos atuais romances adolescentes acéfalos que estão enchendo os olhos e os bolsos de Hollywood... entretanto, para quem busca uma história instigante, que provoque reflexões sobre as consequências dos atos e a psicologia de personagens profundos, “Desejo e Reparação” é um daqueles filmes ideais.


Conceito: Excelente
Nota: 10,0